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Arte em Toda Parte 2010 – o sentido de uma curadoria

O artista plástico Raul Córdula faz uma avaliação da curadoria do 10º Olinda Arte em Toda Parte

Publicado por: Secom, em: 04/01/11 às 12:42
Oficina de pintura de paisagem no Parque do Carmo - 10º Olinda Arte em Toda Parte. Foto: Laila Santana/Pref. Olinda

Oficina de pintura de paisagem no Parque do Carmo durante o 10º Olinda Arte em Toda Parte. Foto: Laila Santana/Pref. Olinda

Este texto se dirige às pessoas que participaram, produziram e discordaram do Arte em Toda Parte nesta 10ª versão. Não posso falar pelo Prefeito Renildo Calheiros ou por sua Secretária de Cultura, Márcia Souto. Falo por mim mesmo: feliz é o povo cujo governo tem maturidade para se renovar, mesmo que tenha de, eventualmente, rever seus projetos e programas. Só não sabe que isto é difícil quem se acomoda a um ritmo de vida e de trabalho defasado da realidade, ou então, no caso dos protestos a minha curadoria do Olinda Arte em Toda Parte, não percebe que esta cidade, embora sendo uma província – o que lhe dá ainda mais charme – faz parte de outra cidade, que por sua vez faz parte de um estado que está no Brasil, país do planeta Terra. Não somos um gueto perdido no tempo e no espaço, somos uma cidade que é Patrimônio Cultural, Histórico e Natural da Humanidade. Faz falta a Olinda antes de seu fechamento nos anos 80 do século passado, quando, orgulhosos, bradávamos: “Olinda somos nós!”

Quando fui convidado para fazer a curadoria do Arte em Toda Parte, eu sabia, e toda a equipe também, que causaria protestos como, aliás, já aconteceu na quarta edição, quando foram outorgados prêmios para artistas contemporâneos, na sexta edição, quando Paulinho do Amparo queimou um boneco de João Falcão, o coordenador geral do festival naquele tempo, e proprietário da marca, e na oitava edição, quando foi posta nos Quatro Cantos uma faixa enorme fazendo acusações volúveis a Tereza Costa Rêgo, esta nossa heroína ética e política.

Posso vislumbrar como se sentiram Moacir dos Anjos, Agnaldo Farias, Gil Vicente e Nuno Ramos nos recentes protestos à Bienal de São Paulo. A diferença é que, em São Paulo, para protestar, os artistas reeditaram “Mitos Vadios”, performance de Ivald Granato, da qual participaram grandes nomes da arte brasileira de norte a sul. “Mitos Vadios” foi um protesto de qualidade estética; é uma outra bienal do lado de fora da Bienal, um espetáculo que realmente contribui para a leitura da arte na metrópole.

Trata-se de uma questão de valores: a cidade promove na área da música festivais como o MIMO e audições de música erudita da melhor qualidade nacional e internacional nas igrejas durante o festival VIRTUOSI, e aqui se realiza também a FLIPORTO, de literatura e do mercado editorial. Mas, na área das artes visuais, a que nos dá mais destaque como centro produtor no Brasil, somos criticados por alguns pelo fato de avançar no sentido da qualidade. Em Olinda, o repertório de possibilidades curatoriais é imenso, de ano para ano se pode ter e construir uma seqüência de situações que podem narrar uma pequena e exemplar história da arte. Mas isto somente poderá ser feito se os artistas assumirem o seu papel, reconhecerem suas posições, desenvolverem suas obras, aceitarem o fato de que tudo se desenvolve, tudo anda, e é absolutamente preciso se colocar diante deste fato: cultura, e sua manifestação mais sutil, a arte, é coisa dinâmica, muda, transforma-se de geração em geração, de acordo com seu tempo, seu país, sua província e sua política.

Desejo aqui corrigir um erro que deixamos passar: esta não é a primeira curadoria do Arte em Toda Parte. Na verdade, este festival sempre teve curadoria, e seu curador foi, até esta versão, o sociólogo e produtor cultural João Falcão, aproveitando a idéia da pintora Tereza Costa Rêgo, do artista multimídia Petrônio Cunha e do museólogo e artista Plínio Victor. Certamente que esta versão trouxe a primeira curadoria do ponto de vista do significado artístico, mas a primeira fase, ou melhor, as curadorias anteriores, estavam focadas numa questão fundamental para o desenvolvimento de comunidades como a nossa: a questão da economia cultural, e isto foi realizado exemplarmente. É só conferir o número de ateliês, galerias e lojas dos típicos produtos confeccionados aqui, pintura, inclusive, para se ter idéia do avanço econômico. É só comparar o número de pessoas que hoje vive se seu trabalho artesanal e artístico, o número de instrutores de pintura, de comerciantes de objetos ditos como de arte. Esta foi, até agora, a função do Arte em Toda Parte. Agora, porém, é o momento de se dar o passo seguinte: Uma curadoria centrada no universo simbólico da arte visando a qualificação de sua práxis, isto é, sua prática específica. Se antes este conceito não foi priorizado, segundo João Falcão, foi porque a economia sempre deve prevalecer, pois o homem, artista ou não, precisa ter condições, mesmo que mínimas, para produzir. Nisto concordamos absolutamente. Divergir, quem há de?

Qual o sentido de uma curadoria? Por que ela é necessária, embora algumas pessoas a rejeitem? Eu diria que a curadoria é o elemento de ligação entre o que se apresenta e o público, é através dela que se organizam a ações educativas, as possíveis leituras da obra. Através dela, se diz ao outro do que trata o que é apresentado.

Acredito que a continuação desse programa da Prefeitura de Olinda possa incluir uma área de capacitação para jovens (ou novos) artistas e artesãos e para o público interessado em abraçar as aventuras da arte: esta é a sugestão que faço. Isto foi feito desde os anos sessenta aos oitenta pelos integrantes do Movimento da Ribeira; do ateliê Mais 10; da Oficina 154; do Museu de Arte contemporânea de Olinda; e da Oficina Guaianases de Gravura. Mas sabemos que muitos ateliês de artistas receberam e recebem alunos. Instituições como a Fundação Casa da Criança treinaram e produziram artistas, e/ou outros museus aqui presentes se colocaram em algum momento nesta função de educar e informar o povo, e,dentro do povo, o artista autêntico.

É importante dizer que a grande produção atual da arte olindense é de arte considerada “Naïf”, mas este é um termo genérico que não corresponde à complexidade desse universo subjetivo do fenômeno artístico. Devo esclarecer que a palavra “Naïf” (ingênuo, em Francês) está hoje generalizada – mas isso não é correto – como termo que engloba estilos ou tendências diferentes, como Primitivismo, Arte Bruta, Arte Ínsita, Arte Nabis, Maneirismo, Pintura Folclórica, Pintura Religiosa Popular (que abrange um leque que vai do catolicismo ao candomblé), Pintores Ingênuos Metropolitanos, Arte e Artesanato Carnavalesco, e muitas outras variações. Mas esse tema merece pesquisa.

Tenho amigos artistas argentinos que, cheios de humor, dizem que o curador é necessário porque a arte é uma doença, mas é também inútil porque a arte é uma doença incurável. Todos eles têm seus curadores e com isso suas obras transpõem fronteiras. Fico do lado deles, até porque este humor é muito mais positivo do que a brutalidade de gritar e agredir quando se deve dialogar, antes de tudo.

Raul Córdula é artista plástico e sócio da ABCA

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